Para pintar o sete entre quatro paredes


Os ingredientes são de fácil acesso e baixo custo. Não todos, mas quase. A receita admite algum improviso e uns toques pessoais. Só é preciso entender bem a função de cada ingrediente para não errar a mão, ou seja, não engrossar demais nem fazer meleca. E convidar alguns amigos pode tornar tudo mais gostoso.

Estamos falando de pintar paredes com tinta natural, preparada com vários itens provenientes da flora nativa e da nossa terra. A receita – já testada e aprovada, tanto em paredes externas como em ambientes internos – é do arquiteto Tomaz Lotufo, pesquisador do Laboratório de Culturas Construtivas da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP). Segundo ele, desde que a casa tenha beiral e, portanto, as paredes estejam protegidas da umidade e da ação mecânica da chuva, a pintura de paredes externas dura cerca de dois anos. Já em ambientes internos a durabilidade pode até ser um pouco maior.

Um dos ingredientes de base é o nosso velho conhecido polvilho de mandioca(Manihot esculenta), cuja função é garantir a aderência e conferir estabilidade à tinta. “Mas é preciso acrescentar um pouco de vinagre, para tornar o sabor da mandioca menos agradável para os fungos que gostam dela”, alerta Lotufo.

A cor pode vir do quintal, da chácara ou até de uma jazida comercial de argila, para os mais urbanos. E é impressionante a variedade de tons de argila que se pode encontrar em nossos solos, entre o claríssimo off white e a escura terra roxa. Outra opção, puxando para o amarelo, são os óxidos ferrosos de alguns corantes em pó para tintas, encontrados no comércio especializado. Uma terceira alternativa é o vermelho das sementes do urucum (Bixa orellana), arbusto bem brasileiro e muito cultivado em todo o país, com uma ampla lista de usos, da pintura corporal indígena aos corantes alimentícios e cosméticos.

Se a escolha for o pigmento de argila, o ideal é misturar com areia fina peneirada, em proporções iguais, para conferir textura à tinta. Depois vem a baba de cacto,impermeabilizante. “Qualquer cacto serve, pois todos têm substâncias que impedem a perda de água e, no caso da tinta, servem para manter a água de fora, ou seja, impermeabilizar a parede”, explica o arquiteto. “Em geral, utilizo o mandacaru ou apalma, por que são cactos grandes e fáceis de encontrar. Basta usar o cerne, tirar os espinhos, espremer num pilão, retirando aquela baba”.

Como o urucum, o mandacaru (Cereus jamacaru) ocorre naturalmente em quase todo oBrasil, também é cultivado e tem várias utilidades, conforme já destacamos aqui no Biodiversa. A palma (Opuntia cochenillifera), de origem mexicana, foi trazida para o Brasil no final do século XIX e é largamente utilizada como alimento para o gado em tempos de seca, no sertão nordestino.

Finalmente, para dar um toque de resistência, Tomaz Lotufo acrescenta algumlaticínio estragado à mistura. “Pode ser leite, iogurte ou queijo ralado, eu só uso com data de validade vencida para não desperdiçar um alimento, um material nobre, mas o que interessa é a caseína dos laticínios, que dá elasticidade e proteção à tinta”, diz.

Quem quiser, depois de pintar, passa ainda uma demão de óleo de linhaça. Como é o item mais caro da lista, o óleo de linhaça pode ser diluído com álcool, por exemplo. Uma receita mais detalhada está no site Bioarquiteto, de Tomaz Lotufo. A receita do site usa o açafrão “brasileiro” (Curcuma longa) como corante. Essa planta, também conhecida como açafrão-de~terra ou cúrcuma, na verdade é originária da Ásia, mas também é fácil de encontrar no Brasil.

“O ideal é fazer um evento, convidando três a quatro pessoas para ajudar a pintar”, complementa o pesquisador das construções sustentáveis. “Primeiro é feito um cozidão com o polvilho, dividindo o grude ao meio: uma parte é usada na receita da tinta natural e da outra metade se faz pão de queijo. A meta é pintar tudo até o pão de queijo ficar pronto para comemorar com o lanche quentinho”.

Foto: Liana John (Mandacaru)

Fonte: Planeta Sustentável

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Ana Paula Figueiredo

Ana Paula Figueiredo

Desenvolvedora de Conteúdo, Gerente e Social Media da Be Sense Media.

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